A famigerada carta para minha versão mais jovem

Oi Carla, tudo bem?

Sei que viagens no tempo são ficção, mas caso você receba isso aos 17 anos, elas se tornaram possíveis. Estou escrevendo isso uns 13 anos depois. Parece muito? Parece pouco? Depende. Para você deve parecer a vida toda.

Você vai fazer a escolha profissional certa. Mesmo que seja uma carreira difícil e ingrata, você vai fazer o que gosta na maior parte do tempo, vai conhecer pessoas incríveis e amadurecer muito com as dificuldades. Fazer o que não se sente bem só por dinheiro é pior, ainda que te permita comprar o que quer que seja. Vencido esse item, vamos aos próximos, que serão mais complexos.

Não tenha vergonha de andar a pé nem esconda de onde veio. Se alguém achar que você vale menos por causa disso, essa pessoa estará lhe fazendo um favor ao se afastar do você. É um jeito de selecionar quem vale a pena ter por perto.

Você é linda, forte e inteligente, não permita que te convençam do contrário. Sei que você nunca espera o mal das pessoas, e isso é ótimo, nunca mude! Só fique atenta porque nem todo mundo é assim. É, muita gente não quer o seu bem, só quer te usar como trampolim. Isso mesmo: vão tentar pisar em você. Você é esperta, se perceber que algo não está certo, siga em frente e deixe essas pessoas para trás. Não pense sempre que você está errada, e se achar realmente que errou, tente consertar. Não imagine mil possibilidades se a verdade está na sua cara.

Sobre amor: você merece e vai encontrar alguém especial, feito para você e até além dos seus sonhos. Seja gentil, conviva com pessoas que achar interessantes, não ligue para status. E, de novo: se achar alguma coisa estranha, não pense que o problema é sempre você. Seja forte nas suas decisões e confie na sua intuição. Isso vai te possibilitar ter paz, mesmo que na hora seja difícil. Falando nisso, as dores que você acha que serão eternas não serão. Siga a vida mesmo sofrendo, logo passa e você vai rir.

Pare de usar Aturgyl, pelo amor de Deus! Vá consultar com um otorrino decente que o tratamento será fácil, barato e vai te livrar desse vício sem sofrimento.

Viajar sozinha, dirigir, tentar uma coisa nova e conversar com estranhos te parecem coisas aterrorizantes, certo? Mas você sabe que é capaz, então insista e será recompensada. É sério, só planeje e faça. Logo.

Sei que você está começando a ganhar dinheiro agora e está super contente em poder comprar o que quer. Aproveite! Mas invista em algo além de roupas bonitas e caras. Comece um curso de inglês e leve a sério. Ter acesso a conteúdos do mundo inteiro vai te fazer abrir a cabeça de um jeito que você nem pode imaginar. Just do it!

Vá fazer algum exercício físico o mais rápido possível! Sei que você se acha um desastre nisso, mas não é :). Insista em algum esporte, ou, melhor ainda, em musculação. Um corpo forte e em movimento vai melhorar incrivelmente a sua qualidade de vida.

Seja mais gentil com a sua família. Essa é auto explicativa: família é para sempre, a sua referência, seu norte, presente, passado e futuro. Um pedaço de você.

Deixei o mais importante por último. Em muitos lugares que você frequenta você se sente estranha, diferente dos outros. Não tem problema nenhum: isso mostra sua essência, o que tem de mais precioso, isso é você. Se alguém rir de você não se chateie e, principalmente, não tente se adequar para ser aceita. É perda de tempo. Só sendo autêntica você vai se realizar, profissional e pessoalmente.

E obedeça o Pedro Bial quando ele te mandar usar filtro solar. Principalmente no rosto, todos os dias.

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O jornalista louco

Chutar o balde: está aí uma coisa que passa pela cabeça de um jornalista quase todo dia. Eduardo não era exceção. Peculiar, no entanto, foi o plano que elaborou para executar essa tarefa. Era fevereiro, decidiu começar na famigerada pauta do peso das mochilas das crianças. Escolas que solicitam material demais, livros pesados, lápis de cor de 245 cores, todo ano era a mesma coisa. Sair da redação com o texto quase pronto, só faltando encontrar uma mãe preocupada, uma criança que aceitasse sair no jornal e um especialista em coluna infantil era coisa do passado. Hoje Eduardo ia fazer diferente.

No início da tarde, observou a chegada dos alunos em algumas escolas. Conversou com pais, professores e crianças. Ligou para um ortopedista. Às 16h, Campos, o editor, recebeu a matéria “Volta às aulas: carregar mochila não oferece riscos às crianças”. O texto, mais um exemplar da habilidade inquestionável de Eduardo, informava que as mochilas dos estudantes de escolas públicas, em geral, eram leves, então não havia com o que se preocupar. Os alunos de escolas particulares sim costumavam ter mochilas pesadas, mas elas eram de rodinhas. Além disso, seus pais têm o hábito de levá-los até a porta da escola – e, não raro, até a sala de aula, então mesmo que carregassem mais peso que o ideal, meia dúzia de passos não seria suficiente para causar lesões, ratificava o especialista, obviamente em palavras compatíveis com um jornal tradicional.

O movimento das sobrancelhas de Campos mostrou que aquele texto não desceu. Mas havia muito a fazer para fechar a edição, então deixou por isso mesmo. Nos dias seguintes Eduardo manteve seus textos na linha previsível. Não achava certo repetir ano após ano a mesma fórmula. Nos primeiros anos no jornal fazia sugestões de reportagens mais originais e que provocassem alguma reflexão nos leitores. Só que a prioridade era sempre algo supostamente mais factual ou supostamente de relevância ou interesse – não necessariamente público, então Eduardo foi desanimando e seguindo a correnteza para evitar o desgaste. Os anos passaram, um, dois, três, meia dúzia, e Eduardo não podia mais aguentar. Sabia que era inconsequente, mas naquele momento só pensava em chutar o balde.

Março chegou, e  com ele o Dia do Consumidor. À essa altura, o grau de putice de Eduardo o levou a escrever a matéria “Consumidor só acha que se beneficia no Dia do Consumidor”. Apagou tudo e viu que aquilo era loucura. Foi um estalo: pensar que podia chutar o balde dessa forma era, no mínimo, ingenuidade. À noite, começou a procurar novas possibilidades profissionais, mas enquanto elas não se concretizassem, precisava de uma válvula de escape. Se no jornal precisava de aprovação para publicar, na Internet a história era outra.

Criou um blog anônimo e começou sua chutada de balde. Quer dizer, sua chutada no além, porque não havia balde. Mas era um alívio. “Novidade incrível: vendas de peixes devem se elevar na Semana Santa”. “FGTS: saiba a melhor forma de desperdiçar o saldo da suas contas inativas”. “Números sobre aumento de vendas no Dia das Mães são inventados”.  “Não conseguiu comprar passagem na véspera de feriado? Azar o seu”. Sabia que era uma ilusão, mas a sensação de escrever e publicar isso era muito boa, mesmo que só ele lesse (ou não).

Pois é, o blog fora descoberto. Não se sabe como, mas primeiro o link circulou entre uns adolescentes, depois caiu em algum grupo de whatsapp e virou assunto também no mundo offline. Rapidamente muitas pessoas, da cidade ou não, começaram a prestigiar a jocosa criação do jornalista louco. O cagaço de Eduardo só aumentava, porque se o editor ou algum colega lembrasse daquele texto das mochilas, era fácil ligar os pontos. Tomava cuidado para não deixar pistas, mas sabia que vivia em risco. Decidiu continuar por mais um tempo. Pediu demissão, mesmo ficando só com uns freelas suficientes para pagar o aluguel, comprar coisas baratas no mercado e nada mais. Talvez essa  tenha sido a chutada de balde que mais queria dar, ainda que o jornalismo não tivesse só essa face frustrante.

“Tem gente atrasada no Enem todo ano, qual a graça?”. “A sujeira dos panfletos dos políticos na rua é o menor dos problemas que eles causam”. “Não saiba o que abre no feriado: você não vai sair de casa mesmo”. “Atribuir cores a meses pouco ajuda”. Antes de terminar o ano Eduardo decidiu parar, não porque recebia ameaças na conta de email do blog, mas porque sentiu que o ciclo estava encerrado.

Deletou tudo sem pensar muito e seguiu a vida como se nada tivesse acontecido. Voltou a estudar e arrumou outro trabalho. Às vezes, parece que tudo isso foi só fantasia da sua mente fértil.

 

O caso do ronco

Comecei esse texto há meses, notei agora que estava esquecido, concluí e estou publicando. A cirurgia que menciono foi em novembro, então né, tem um bom tempo de gaveta.


Hoje faz uma semana que estive no hospital para uma cirurgia. Foi um procedimento relativamente simples, mas tive que passar uma noite por lá. Reparem que disse passar a noite, não dormir. Quando contratei o plano de saúde fiquei meio chocada com o preço, então escolhi acomodação semi privativa pra amenizar o gasto. Uma hora essa economia ia ser cobrada, sempre soube disso.

Depois da experiência psicodélica proporcionada pelas drogas que me permitiram aguentar enquanto cortavam e costuravam meu pé direito, e de ficar horas na sala de recuperação tentando voltar a mexer as pernas enquanto assistia minhas novas amigas vomitarem, só podia imaginar ir para o quarto como um momento lindo. Mas as pessoas, ah, esses serumaninhos sempre conseguem surpreender.

Definitivamente era um dia para superar limites. Sabe aquele filme do casal que compra uma casa com uma senhora morando no sótão? Essa senhora, barulhenta e com um humor peculiar, era minha colega de quarto. Aí ela tomou remédio para dormir. Em três minutos, apagou, de barriga para cima e boca aberta. O ronco começou parecendo um engasgo, e logo evoluiu para rugido de felino africano. Lá pelas tantas parecia uma velha porta emperrada. Pude elaborar uma detalhada escala de classificação, já que tive a noite toda disponível. Resolvi todos os problemas da vida de forma imaginária enquanto olhava de 5 em 5 minutos para o céu na esperança que começasse a clarear.

Mas eu tive uma pequena alegria. Uma parente passou a noite com essa senhora, que estava internada por uma meia dúzia de motivos. E lá mesmo, na poltrona que fica ao lado do leito, ela dormiu. E roncou. Roncou tanto e tão alto que tive que reelaborar a escala de roncos. A senhora acordou, e resmungou algo, incomodada com a sonoridade da acompanhante.

Só podia pensar na frase “parece que o jogo virou, não é mesmo”. Salvou minha noite.

Reflexos

Comecei esse texto faz tempo, mas cada dia pensava numa sequencia diferente e acabava não publicando. Decidi postar mesmo assim, pq tenho certeza que nunca estaria 100% satisfeita. Vai ser como uma série, com episódios semanais, ou mais frequentes, se disponibilidade e inspiração coincidirem.

*****

 

Uma tarde corriqueira de outono passava longe de ser a situação idealizada por Lara para reencontrar Fabrício depois de quase dez anos. A sessão de vinhos do mercado, um barzinho em que ela aparecesse com vestido vermelho deslumbrante ou o saguão de um grande aeroporto eram cenários que ela havia detalhado na imaginação para revê-lo do alto de uma  bem construída superioridade. No fundo a intenção era passar a mensagem “baba olha o que perdeu, baba a criança cresceu, bem feito pra você, agora eu sou mais eu”, só que de um jeito que lembrasse mais uma versão jovem da Miranda Prietsly do que a Kelly Key. Ela queria pisar no ego dele com um salto agulha para então seguir a vida com a satisfação de se vingar do primeiro homem a magoá-la. Outras pessoas achariam a ideia ridícula, o que não importou, porque ninguém jamais soube.

Mas isso eram planos há anos, hoje esses devaneios estavam todos empoeirados em algum canto do cérebro destinado ao passado que não tem mais utilidade prática. O fato é que esse dia chegou, como ela sabia que chegaria. Ela sentiu um frio na barriga, como sabia que sentiria. Fez cara de susto, como sabia que faria. Só que em vez de estufar o peito e encarnar uma megera sutil, Lara sentiu como se  se livrasse de um peso. Em vez de mágoa, nostalgia. Não uma vontade de reviver ou mudar o que passou, apenas a lembrança serena de um caminho que a levou a ser quem era.

Ele estava sentado em uma cafeteria. Quem – nas suas lembranças – era um rapaz alto, forte e de olhar profundo, agora era um homem comum, desses que trabalha, paga contas e sai de férias uma vez por ano.

O espaço e o tempo necessários para Fabrício movimentar os olhos da garçonete que serviu o seu café até a xícara deixada sobre a mesa foram suficientes para ele reconhecer Lara, que passava ao lado. Eram quase dez anos, não tinha como ser ameno esse primeiro contato. Ele fez menção de levantar, ela diminuiu o passo.

*****

Quer saber o que acontece agora? Veja o próximo episódio 🙂 Quando sai? Também não sei, mas em uma semana deve estar aqui.

Para assistir: Um Senhor Estagiário

Tem horas que só o que a gente quer é assistir algo agradável, leve, reconfortante e inspirador, como tomar um banho e vestir pijamas depois de um dia cheio. Foi assim que me senti assistindo ao filme Um Senhor Estagiário (The Intern, 2015). Tenho um carinho especial pelas comédias, mas rir com burrices e maluquices não me satisfaz, gosto de filmes com “camadas”, que trazem algo além de entretenimento instantâneo. Juno, O Diabo Veste Prada e Amizade Colorida são alguns exemplos que lembrei agora. Eles aliam comédia e drama com sensibilidade, em cenários que enchem os olhos, com atores consagrados em papéis que lhes caem bem.

(sou legal, não tem spoilers)

Esse tipo de filme parece se passar num mundo ideal, o que para mim não é um problema, já que é justamente para ter um respiro das tragédias cotidianas que busco esse tipo de entretenimento.

Mas voltado a Um Senhor Estagiário, vou lhes poupar do resumo, que pode ser facilmente encontrado internet afora. Os protagonistas são interpretados por Anne Hathaway e Robert De Niro, que estão fofos na medida certa. Diferenças entre gerações e os contrastes que isso provoca – tanto no ambiente corporativo quanto no particular – e os desafios das diferentes fases da vida compõem o enredo, contado em pouco mais de duas horas – que teve poucos segundos de relativo tédio.

O filme explora muitos outros assuntos, mas o empreendedorismo tem destaque. A protagonista é dona de uma empresa de comércio de roupas pela internet, que funciona no prédio de uma antiga fábrica. Essa empresa cresceu em 18 meses o que era previsto para 5 anos, passando de 20 e poucos para mais de 200 funcionários. No desenrolar da história, a gente pensa bastante sobre liderança, humildade, reconhecimento, mas de um jeito sutil, sem a chatice que normalmente permeia esses temas.

O cenário é incrível, com tijolinhos + iMacs, e tudo mais que envolve Nova York (imagens aqui).

Estou longe de ser uma estudiosa em cinema, meus comentários são os de uma simples expectadora. Obrigada a você que leu até aqui, espero que tenha sido útil ;).

um-senhor-estagiario

O primeiro

Uma pessoa que acredita na escrita como uma das formas mais fascinantes de se comunicar precisa de um espaço para publicar despretensiosamente o que quiser. Por isso corto hoje a fita inaugural desse espaço, que não sei se terá frequentadores, ou o quanto terá novidades, mas de qualquer forma minha cabeça está muito pequena para as ideias, daí fiz esse puxadinho. Pelo tanto de metáforas que usei nessas poucas linhas dá pra ter pistas sobre o nome desse blog. Algo me diz que teremos muitos exageros e figuras de linguagem pela frente.